Edílson abre baú de brigas e detalha carreira no Abre Aspas

Edílson Silva Ferreira se autodenomina uma pessoa de personalidade. Talvez por isso tenha ganhado o apelido de "Capetinha", muito pelo futebol mostrado dentro de campo e pelas inúmeras polêmicas fora dele.

Aos 55 anos, o ex-jogador campeão do mundo pelo Brasil na Copa do Mundo de 2002 e com passagens de sucesso por Palmeiras, Corinthians, Flamengo, Cruzeiro, entre outros, diz que é um novo homem depois da participação no Big Brother Brasil.

– O Big Brother me deixou independente de várias coisas. Eu mostrei para mim mesmo que não tenho limites, consigo fazer tudo aquilo que quero. Eu me desprendi de várias coisas. No Big Brother, por mais que seja pequeno ou grande, você não pode ter mentiras, porque a mentira pode voltar contra você, então até isso aprendi. Aprendi a dar valor a várias coisas pequenas.

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Edílson foi expulso do programa por agredir um colega de confinamento.

– Errei. Pedi desculpa ao meu estafe, desculpa ao próprio Boneco [Leandro] e ao público também, que teve muita gente que estava torcendo por mim. A Ana Paula, que ganhou o Big Brother, jogou muito bem, mas acho que a grande ameaça seria eu. Acho que poderia ter tirado o título da Ana Paula. Por tudo, pela inteligência, minha maneira de ser, pelo público que já tenho, por ser um cara honesto, sincero o tempo inteiro, brincalhão... – disse.

A carreira de sucesso no futebol poderia ter rendido uma vida mais tranquila. Segundo ele, a trairagem de algumas pessoas e os investimentos errados feitos ainda quando atuava não lhe renderam uma aposentadoria sossegada. Por isso, atualmente trabalha oferencendo serviços de assessoria para ex-atletas e jogadores em atividade.

– Perdi muita grana em fazer investimentos errados. Você tem que ter gestor financeiro dentro do projeto, pessoas de confiança para que não perca o seu dinheiro. Investi na época do Boi Gordo. Não só eu, outros jogadores também. Depois decretaram falência, a gente deixou muito dinheiro e até hoje não foi resolvido esse negócio. Tenho uma grana pesada lá para receber e até hoje não recebi.

– Se for calcular, desde 1998, 1999, dá para ficar com o burro na sombra. Ah, meu Deus do céu! Mas são coisas que acontecem, são erros que a gente comete. Talvez a gente passe por isso para ser exemplo para os jogadores mais jovens não caírem nessa lábia de pessoas que vêm com maldade para cima para poder aplicar o golpe – disse Edílson.

Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli

Os títulos e o sucesso como jogador sempre tiveram a companhia de confusões. Edílson admite que a personalidade forte gerou conflitos com muitos colegas de profissão, como Vanderlei Luxemburgo, Edmundo, Rincón, Petkovic, entre outros. Teve até tiros em concentração e confusão com Evaristo de Macedo.
– Tive dificuldades em todos os clubes que passei. Eu também não fui santo, não. Sou um cara com uma personalidade muito forte, já tive muita dificuldade em lidar com grupos, porque sou um cara de opinião forte o tempo inteiro, que expressa muito o que está sentindo e muito rápido. As pessoas percebem logo, porque geralmente estou sorrindo e quando fecho a cara é porque estou chateado ou puto com alguma coisa.
O Vanderlei era tiro, porrada e bomba. Ele era bom técnico, sabia o que fazer. Mas como gestor de jogadores ele tinha essa dificuldade
— disse Edílson.
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Em pouco mais de duas horas de entrevista ao Abre Aspas, nos estúdios da Globo, em São Paulo, Edílson detalhou também a relação com o ex-jogador Neto, bastidores das passagens por grandes clubes do futebol brasileiro e uma curiosidade: nunca colocou uma gota de álcool na boca.
Ficha Técnica
- Nome: Edílson Silva Ferreira
- Apelido: Capetinha
- Idade: 56 anos (17/09/1970)
- Carreira: 711 jogos | 305 gols
- Clubes: Guarani, Palmeiras, Vitória, Benfica, Corinthians, Flamengo, Cruzeiro, Kashiwa, Al Ain, São Caetano, Vasco, Bahia e Taboão da Serra.
- Títulos: Copa do Mundo (2002); Mundial de Clubes (2000); Campeonato Brasileiro (1993, 1998 e 1999); Copa dos Campeões (2001); Campeonato Paulista (1993, 1994, 1997 e 1999); Campeonato Baiano (2004 e 2007); Campeonato Carioca (2000 e 2001); Copa Sul-Minas (2002) e Torneio Rio-São Paulo (1993).
ge: Como está a sua rotina depois de ter participado do BBB?
Edílson: – Hoje, graças a Deus, me sinto muito bem, com vários projetos pessoais, o (show de stand-up) Melhor Resenha do Mundo que a gente já tem, os projetos das nossas empresas também, que a gente cuida de alguns outros jogadores no nosso escritório. Estou muito feliz com todo esse trabalho, chegando agora de uma Copa do Mundo, em que eu fiquei 50 dias fora, fazendo um trabalho bacana pela Rede Ronaldo. Foi muito legal a cobertura da Copa do Mundo. Uma pena que o nosso Brasil não foi muito longe, mas foi um trabalho incrível, de construção de imagem, de marca também.
Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
Você trabalha com jogadores?
– A gente tem um escritório e assessora alguns jogadores. É muito legal isso. Começamos tem mais ou menos um ano, e a intenção é que a gente tenha muito mais. Eu acredito que tem muitos jogadores que precisam de assessoria, pela experiência que eu tenho, pela experiência que a minha equipe tem. Eu acho que a gente pode ajudar muito os jogadores atuais e os ex-jogadores também. Tem uma gama de ex-jogadores que têm um know-how muito grande e às vezes para de jogar e não tem noção para onde vai.
Como funciona, é uma assessoria de comunicação, de imagem...?
– De imagem, de marca, do nome, de tudo, né? Assessoria de tudo do jogador. Instagram, rede social, tudo para que ele possa se sentir seguro também. Ter pessoas que possam cuidar da imagem dele mesmo depois de ter parado de jogar. Nós começamos com essa gama de ex-jogadores porque é um mercado que eu uso muito para mim, faço muitos eventos, estou no dia a dia com os ex-jogadores e vejo as dificuldades que eles têm.
Quem faz parte desse portfólio?
– Além de mim, nós temos o Grafite e o Léo Moura.
Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
Qual foi a maior dificuldade que você encontrou na transição de carreira?
– A gente mudou muito, a vida, a visão que as pessoas têm do jogador de futebol e do ex-jogador. Jogador de futebol, na minha época, não tinha muita noção de construção de imagem. Só jogava bola e arrumava alguém para poder cuidar da assessoria dele ou da vida dele, entregava tudo nas mãos de alguém, do empresário. Hoje os jogadores têm mais essa preocupação de saber o que está acontecendo com a carreira deles, estruturar mais, ele não vive só de dentro de campo, ele constrói uma imagem. Hoje, com as redes sociais, é muito importante ter uma equipe trabalhando para você. Eu não tive isso. Se eu tivesse tido essa orientação, acho que poderia estar em uma situação bem melhor do que me encontro.
– A gente não ganhava as cifras que rolam hoje, não recebíamos mensalmente. Geralmente, os clubes demoravam muito para pagar. Quando pagavam, pagavam parcelado ainda. Então, nós deixamos muita coisa para trás, deixamos de receber muita coisa. E hoje não, os jogadores têm mais essa liberdade de poder expressar tudo aquilo que estão sentindo, a aceitação é de que os clubes têm que honrar com seus compromissos. E hoje o jogador, devido a potência que virou fisicamente o futebol, psicologicamente também, tem que estar mais preparado para poder cuidar dele e deixar que as outras pessoas, o seu estafe, cuide das outras coisas para que não tenha nenhum tipo de preocupação fora de campo.
Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
Abriu um mercado maior para os ex-atletas, né? Com novas mídias, muitos eventos sendo realizados...
– A gente tem visto alguns jogadores falecendo com 50 anos, 55 anos, pessoas que estão com dificuldade financeira, de ter um plano de saúde. A gente trabalha para que essas pessoas tenham a consciência de trabalhar, tentar fazer alguma coisa hoje para que tenha um futuro mais tranquilo. E aí, quando a gente fala de ex-jogadores fazendo evento, sendo procurados para fazer qualquer tipo de coisa, é a valorização deles. Vejo que os ex-jogadores não se valorizam muito. Eles vão fazer um evento e não olham se o carro está com pneu bom, se a van que vai levar está legal, se o motorista bebeu. A gente se preocupa com tudo isso. A maioria não se valoriza muito porque está precisando e acaba indo por qualquer valor, em qualquer condição. É lógico que ninguém quer que aconteça, mas se você não se precaver, de repente pode acontecer um acidente.
Por que você acha que isso acontece?
– Os jogadores de hoje têm medo da lacração, né, cara? Aquela coisa de você falar alguma coisa e, de repente, não cair bem, ser cancelado, as pessoas começam a falar mal. Como a gente vem de uma outra geração e tem uma aceitação... Eu, Vampeta, a gente tem uma opinião formada, e outros jogadores, Edmundo, Romário, todo mundo sabe como a gente é. Tem certas coisas que a gente fala que todo mundo aceita, porque todo mundo sabe a personalidade, o jeito de ser. A aceitação é diferente de um jogador que está atuando. Eles têm medo disso, de colocar alguma coisa errada e perder público.
Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
Você falou sobre construção de imagem, tem algo que você poderia ter feito diferente na sua carreira?
– Eu erro até hoje. Mas é sempre com a intenção de acertar. Eu acho que a vida é isso mesmo, de erro e acerto. E você não vai acertar sempre e também não vai errar sempre, mas o mais importante é tentar. E é isso que eu sinto falta hoje dos jogadores dentro de campo, vejo que eles têm esse medo de tentar fazer a jogada, falar com o companheiro, com o treinador. Eu vejo muito isso nos jogadores hoje, eles estão muito burocráticos. "Vou fazer só isso e está bom". E essa coisa do medo de tentar tem feito com que os jogadores de hoje sejam até bons, mas normais dentro de campo.
Mudou muito a sua vida depois do BBB?
– O Big Brother foi uma jogada de assessoria mesmo, uma jogada da minha equipe, para que eu pudesse quebrar vários paradigmas que tinha. Não preconceito, mas tinha várias barreiras minhas mesmo que eu precisava quebrar, e o Big Brother me fez isso, me deixou independente de várias coisas. Hoje eu tenho uma outra cabeça. No Big Brother, eu consegui ficar em uma prova de 23 horas e pouco, sem comer, sem beber, sem ir ao banheiro. Eu mostrei para mim mesmo que não tenho limites para as coisas, consigo fazer tudo aquilo que quero. Eu me desprendi de várias coisas. No Big Brother, por mais que seja pequeno ou grande, você não pode ter mentiras, porque a mentira pode voltar contra você. Então até isso eu aprendi. Aprendi a dar valor a várias coisas pequenas, tipo apagar uma luz, porque lá você não pode apagar a luz a hora que você quer. A tomar um banho sem roupa, porque lá você tem que tomar banho com roupa.
– Lá, você tem que ser verdadeiro com seu companheiro o tempo inteiro, porque está todo mundo assistindo, não pode falar uma coisa para uma pessoa e uma outra coisa para outra pessoa. Então me libertei muito dessas coisas. Como construção de imagem, fui pentacampeão em 2002 e nós estamos em 2026, eu precisava que essas pessoas que nasceram depois de 2002, que não me viram jogar, que me conhecessem, a minha essência, quem sou eu fora do campo. Muita gente me conhece, meus amigos, meus familiares, mas o público em geral não sabe quem sou eu, os meus costumes, o que gosto, como eu sou, a minha personalidade. O Big Brother serviu muito para isso. Sou muito grato, foi uma experiência maravilhosa.
Sou totalmente diferente depois do Big Brother. Meu pensamento, a minha maneira de agir, a minha maneira de me comportar, acho que o Big Brother me ajudou muito.
— Edílson.
Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
Você deixou o BBB expulso por agredir outro participante, o Leandro Rocha, conhecido como Boneco. Está arrependido?
– Errei, errei, errei. Pedi desculpa ao meu estafe, pedi desculpa ao próprio Boneco e ao público também, que teve muita gente que estava torcendo por mim, os meus fãs. A Ana Paula, que ganhou o Big Brother, jogou muito bem, mas eu acho que a grande ameaça dentro do Big Brother seria eu. Acho que eu poderia ter tirado o título da Ana Paula. Por tudo, pela inteligência, pela minha maneira de ser, pelo público que eu tenho, por ser um cara honesto, sincero o tempo inteiro, brincalhão, que se preocupa muito com as outras pessoas. Eu estava sempre tentando ajudar, mesmo as pessoas fazendo coisas que, de repente, quem estava do lado de fora não estava achando legal, mas eu estava sempre dando força às pessoas.
Veja a resposta completa no vídeo abaixo:
Edilson comenta passagem pelo BBB: “Poderia ter tirado o título da Ana Paula”
Você disse que muitos jogadores são otários e acabam sendo enganados por outras pessoas. Dê um exemplo de uma situação em que você foi passado para trás e que acontece também com outros atletas.
– Eu falo otário, mas um otário do bem, não é que o jogador seja ruim, mau caráter, um cara que vacila o tempo inteiro. É o otário de acreditar sempre nos outros. Quando a gente é renomado, muita gente encosta do lado para poder tirar proveito. Às vezes, é por grana, pela fama, por ter acesso a isso, acesso àquilo. O otário é porque a gente acaba sempre acreditando nessas pessoas.
Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
Você teve alguém que te passou a perna, que te levou dinheiro?
– Várias pessoas. Várias pessoas que, de certa forma, tomaram alguma coisa. Às vezes você acredita muito em um contrato com um, um contrato com outro. Às vezes você deposita uma confiança em certas pessoas. "Ah, vou fazer investimento aqui". Tem muita gente que quer fazer investimento e se você não tiver profissionais para poder avaliar isso e for por você mesmo, é capaz de perder muita grana. E eu perdi muita grana nisso, em fazer investimentos errados. Eu acho que você tem que ter gestor financeiro dentro do projeto, pessoas de confiança para que você não perca o seu dinheiro.
Muitos jogadores perderam dinheiro recentemente investindo em criptomoedas. E você, qual foi o investimento errado que fez?
– Investi na época do Boi Gordo, lembra? Não só eu, outros jogadores também. Aí depois decretaram falência da Boi Gordo, a gente deixou muito dinheiro e até hoje não foi resolvido. Eu tenho uma grana pesada para receber e até hoje não recebi.
[Nota da redação: O Boi Gordo (Fazendas Reunidas Boi Gordo) foi um dos maiores esquemas de pirâmide financeira da história do Brasil, ocorrido entre o final dos anos 1990. O retorno garantido era de cerca de 42% ao fim de 18 meses, uma rentabilidade muito acima da média da pecuária. O dinheiro dos novos investidores servia para pagar os resgates dos investidores antigos].
Dá para falar quanto é?
– Se for calcular, desde 1998, 1999, dá pra ficar com o burro na sombra. Ah, meu Deus do céu! Mas são coisas que acontecem, são erros que a gente comete. Talvez a gente passe por isso para ser exemplo, para os jogadores mais jovens também não caírem nessa lábia de pessoas que vêm com maldade para cima da gente para poder aplicar o golpe.
Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
Numa entrevista ao Abre Aspas, o Denílson disse que há mais "trairagem" na TV do que no futebol. Você também já esteve dos dois lados. Concorda com ele?
– A TV tem uma gama bem menor de pessoas, de traíras. No futebol você tem muita trairagem. No linguajar nosso, de jogador, a gente costuma dizer que o futebol nasceu para trairar. Nasceu para você poder trairar o seu companheiro no dia a dia. Por quê? Quando você monta um grupo, um time, você tem 35, 40 jogadores. Na época, jogavam 11 e só podiam ir quatro para o banco. E aí todo mundo queria jogar ou ir para o banco. A outra parte, nem jogar nem ir para o banco ia.
– A disputa interna é muito grande e está todo mundo querendo conquistar o seu espaço, ganhar o seu dinheiro, a sua notoriedade. Por que você não está jogando? São todos profissionais e você não está jogando. Não está jogando porque, de repente, o cara que está jogando está melhor, ou é melhor do que você. Mas você, ao mesmo tempo, quer mostrar que é melhor do que aquele cara. E nessa ocupação de espaço, de jogar, não jogar, existe muita trairagem. De não passar uma bola, dar uma entrada no treinamento para machucar o companheiro, falar mal dele no dia a dia.
Em duas décadas de carreira como jogador você passou por vários times grandes, com elencos de peso. Qual deles tinha mais "trairagem"?
– Eu tive dificuldades em todos os clubes. Eu também não fui santo, não. Sou um cara com uma personalidade muito forte. Eu tive muita dificuldade em lidar com grupos, porque sou um cara de opinião forte. Sou um cara que expressa muito o que eu está sentindo e muito rápido, as pessoas percebem logo, porque eu geralmente estou sorrindo e quando fecho a cara é porque estou chateado com alguma coisa ou estou puto. Então é muito fácil você saber se eu estou puto ou se eu estou bem. Basta olhar para mim.
– Nunca fumei, nunca experimentei droga nenhuma. Sou careta de tudo, velho. A única coisa que eu gosto é do meu pagodinho. Eu amo pagode, eu amo tocar cavaquinho, percussão, bateria, amo tocar tudo. Mas nunca coloquei um gole de álcool na minha boca. Eu nunca nem experimentei cerveja. Eu não sei o gosto da cerveja. Eu nunca tomei uísque, nunca tomei vinho. Nada, nada, nada. Meu sangue, dentro de mim, não tem álcool nenhum.
Veja a resposta completa no vídeo abaixo:
“No futebol tem muita trairagem”, diz Edilson Capetinha
Nunca teve curiosidade? Isso foi por algum trauma ou apenas uma escolha?
– Álcool, para mim, não combinava com aquilo que eu queria. Eu queria ser um jogador de ponta, de alto nível, e acho que o álcool ia me atrapalhar muito. Então, eu preferi nem experimentar. Eu ando com o cara que mais bebe no Brasil, o Vampeta. Eu duvido alguém derrubar o Vampeta. E eu nunca experimentei cerveja. Então, para eu conseguir isso, eu tenho que ter muita personalidade, porque todo dia alguém me oferece alguma coisa e sempre digo não. Eu sempre sei o que é que quero para mim. Então não adianta alguém vir me oferecer uma coisa que eu não quero.
– Eu nunca experimentei, mas vai que eu experimente essa porra e goste mesmo. E aí, como é que é? Aí eu vou gostar de beber, aí a bebida me leva para a noitada, aí a noitada me leva... Eu trabalho com o meu corpo, com a minha saúde. Eu iria treinar e o meu rendimento não seria o mesmo, porque é diferente de quem bebe e quem não bebe. Eu não bebo, eu fico até duas, três horas da manhã acordado, durmo duas horinhas e acordo novinho, como se nada tivesse acontecido. Mas o cara que bebe, todo mundo fala que é totalmente diferente para você se recuperar no outro dia, principalmente quem trabalha com o corpo. Então, preferi não beber. Depois que parei de jogar, aí já estava velho, não vou beber mesmo. E nunca bebi.
Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
Mas, voltando: qual o grupo que você passou com mais "trairagem"?
– No Palmeiras, eu era bem jovem, aceitava certa trairagem e, às vezes, não entendia. Eu era um pouco inocente naquele Palmeiras. Também estava tentando me afirmar como jogador. No Corinthians, eu já era uma realidade, tinha a maldade, a malandragem de tudo, sabia quem eram os malandros, quem eram os traíras, quem era gente boa, em quem eu precisava confiar, em quem eu não tinha que confiar. No Flamengo, era um outro ambiente, porque era o Rio de Janeiro, e a galera pensa totalmente diferente do paulista. Ali já aceitam algumas coisas que aqui (em São Paulo) não aceitam, então tive que me acostumar.
– Onde tive mais dificuldade, na verdade, foi no Palmeiras, no início. Foi muito difícil para mim, até porque tinha um treinador também que não ajudava muito, o Vanderlei Luxemburgo. O Vanderlei também tinha as vaidades dele, as coisas dele, e ele também queria se sobressair perante ao grupo, precisava ter aquela afirmação como treinador. Ele foi o melhor que me treinou, maravilhoso como treinador, mas eu tive muita dificuldade com o Vanderlei. Na época, eu não entendia a maneira de ele lidar com os jogadores, de trabalhar, e tive muitas brigas com o Vanderlei Luxemburgo, muitas mesmo. Em uma dessas brigas, acabei saindo do Palmeiras, fui para o Benfica, que era da Parmalat também. Acho que o Palmeiras foi o time que tive mais dificuldade com essa coisa de vaidade.
Você fala dessa dificuldade com o Luxemburgo, mas teve muitas conquistas com ele, parecia uma dupla afinada...
– Não, que afinada nada. O Vanderlei era tiro, porrada e bomba. O Vanderlei me cortou (depois) das embaixadinhas, me afastou no Corinthians, não sei se vocês se recordam, ele me afastou e eu fiquei um mês treinando em Itaquera, onde é o estádio do Corinthians hoje, sozinho, por causa de uma briga que tive com um policial (detido por desacato). Não tinha nada a ver com o clube. Acho que ele penalizou o clube durante um bom tempo por ter me afastado. Perdemos um título para o São Paulo (Paulistão de 1998), em que a gente era favorito, e acabei não jogando essa final, porque fiquei afastado durante esse tempo. Saí do Palmeiras por causa do Vanderlei, na época. Em todos os jogos, ele me tirava do jogo, e eu engoli tudo isso.
Veja a resposta completa no vídeo abaixo:
“Tinha as vaidades dele”: Edilson Capetinha relembra desentendimentos com Luxermburgo
Mais do que o Corinthians com Marcelinho, Rincón, Ricardinho...?
– Ah, o Corinthians eu tirava de letra, pô. Lidar com maluco é a melhor coisa do mundo, cara. Lidar com os caras que são bagunceiros, os caras que vão para a noite, os caras que se resolvem dentro de campo e olha para você e fala a verdade é a melhor coisa do mundo, pô.
Falam que para lidar com maluco só sendo outro maluco...
– É, eu também era maluco, e aí estava tudo certo. Mas a gente sabia das vaidades, eu já tinha experiência no Corinthians para lidar com as vaidades. Eu sabia quem era o Marcelinho, o Luizão. O Luizão já me conhecia, sabia quem era o Vampeta. Cara, jogar com o Vampeta... Para mim, foi um dos melhores jogadores que eu joguei. Na posição dele não teve um melhor, mas jogar com o Vampeta era difícil demais. O Vampeta reclamava de tudo: de mim, do Marcelinho, do Luizão. Mas eu sabia que era dele, era um cara maduro para saber: esse maluco aí, deixa reclamar, mas jogava para c...
E com o Marcelinho, como você levava?
– O Marcelinho foi o meu melhor companheiro de todos os clubes, de me entender. "Pô, o Edilson pegou na bola, eu já sei o que ele vai fazer". Se o Marcelinho pegava na bola, eu sabia o que ia fazer. É uma coisa impressionante. Se você me vir jogando hoje peladinha com o Marcelinho, vai dizer: "caramba, é tipo Pelé e Pepe". E o Marcelinho tinha a vaidade de ser o líder do time, o capitão, aquele cara que a torcida mais ovacionava, era sempre o último a entrar em campo, no ônibus. E aí a gente ficava: "pô, lá vem esse cara de novo". A gente esperando o cara e não sei o quê. E eu falava: "calma que ele vai resolver no jogo de amanhã". Eu sabia lidar com os caras.
– E não vou falar de mim mesmo, né? Mas alguém vai falar de mim uma hora aqui. Eu era todos eles em um só. Imagine o Marcelinho, o Luizão, o Vampeta, em um só. Era eu. Eu não posso falar de mim, mas eu era chato para c... também. Eu sou virginiano, perfeccionista, não aceito erro. Eu nunca assisti a um jogo meu, isso é um defeito também. Porque eu rasgava a camisa e ficava chateado comigo mesmo o tempo inteiro, porque não aceito erros. Eu tinha uma regra dentro de casa: quando terminava o meu jogo, ia para o quarto e ninguém podia entrar. Eu primeiro precisava baixar o sangue, a poeira, essas coisas todas. Alguém batia lá só para me entregar comida, mas não queria ver ninguém, não queria falar de futebol, não queria ver jogo, não queria ver nada. Só queria parar para pensar naquilo que fiz dentro de campo.
Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
E você também era vaidoso?
– O que mais tinha era vaidade. Eu? Demais. Demais, demais. Um dia vocês vão pegar alguém que vai falar desse time e vai falar de mim. Eu sempre fui um cara vaidoso para tudo. A vantagem desse time é que tinha muita vaidade, mas tudo era resolvido dentro de campo. Quando a gente entrava em campo, deixava tudo do lado de fora. A gente era companheiro para caramba, era amigo, era parceiro o tempo inteiro. A gente jogava em um time em que todo mundo almejava a seleção brasileira: eu, Ricardinho, Vampeta, Luizão e Dida, cinco desse time são pentacampeões mundiais.
– E a gente tinha outros, como Gamarra, que jogava na seleção paraguaia, Rincón, que jogava na seleção colombiana, e o Marcelinho não foi para a Copa do Mundo, mas tinha condições de ir. Sylvinho, Kleber e Fábio Luciano também jogaram na seleção brasileira. Então, era tipo uma seleção no Corinthians, não tem como não ter vaidade. Era uma vaidade enorme. É só você saber lidar com ela. Saber a hora certa de brincar, a hora certa de você falar com a pessoa. Aí você vai conhecendo. Hoje nós somos amigos para caramba, todo mundo, mas, dentro de campo, era uma vaidade muito grande.
Foi o melhor time que você jogou?
– Foi o melhor time que joguei e, na minha concepção, respeito a opinião de todos também, acho que foi o melhor time que o Corinthians já teve em todos os tempos. Acho que o Corinthians nunca formou um time tão bom, tão eclético. Tinha todos os jogadores, todo o perfil de jogador, driblador, batedor de falta, cabeceador, cara rápido, habilidoso, defesa forte, meio de campo forte e habilidoso, que sabe jogar, atacantes que faziam muitos gols, e driblava e cabeceava... Acho que um time eclético igual àquele eu nunca vi no Corinthians.
Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
Talvez tenha faltado a Libertadores para coroar..
– O time era tão bom que a Libertadores a gente só não ganhou porque desdenhou de todos os outros times. Principalmente do Palmeiras. A gente estava ganhando do Palmeiras fácil, num jogo em que a gente achava que ia passar fácil, ganhando de 3 a 1 e queria ganhar de seis. Se a gente tivesse um pouquinho de humildade para dizer assim: "pô, vou jogar no erro do Palmeiras, recuar um pouquinho e vou matar o jogo a hora que quiser". A gente estava dando três e queria dar cinco, seis. Acabamos tomando o empate e perdemos nos pênaltis. A gente era muito superior, perdemos para nós mesmos. Já conversei sobre isso com todos que estavam dentro de campo e até com os jogadores do Palmeiras. E eles falam a mesma coisa. O time da gente era bem melhor do que o time do Palmeiras. Nós perdemos para nós mesmos.
Você acha que realmente deu uma esnobada?
– Deu, esnobou, esnobou totalmente. A gente tinha muito isso também. Eu e Marcelinho principalmente, a gente brincava muito em campo. Ganhava o jogo a hora que queria e brincava a hora que queria também. Era esse o problema do Rincón e do Vampeta comigo. Tivemos muitas brigas por causa disso. A gente jogava e queria dar espetáculo. Muitas vezes a gente fazia coisas que não era para fazer. Aí ficava brincando, dava um chapéu, ficava fazendo tabelinha, em vez de ir para frente ia para trás. Várias vezes a gente fez isso e talvez essa soberba tirou aquela Libertadores. E as embaixadinhas vêm dessa brincadeira. A embaixadinha não é nada mais do que isso, do que a gente fazia dentro de campo, brincava nos treinos e levava isso para campo. A embaixadinha veio daí.
Edilson diz que Corinthians perdeu Libertadores para o Palmeiras por soberba
O quanto aquele gesto saiu no momento e o quanto você já foi para o jogo pensando em provocar?
– Aquilo não foi pensado em nada. Aquilo era dos treinos, daquilo que a gente fazia dentro de campo. Se você pegar alguns jogos daquele Corinthians, vai ver que teve jogadas que você fala assim: "os caras estão brincando". No jogo Santos x Corinthians, a estreia do Rincón no Santos, o jogo foi 5 a 1 para a gente, tem um gol que eu driblo o Zetti, não faço gol e toco para o Marcelinho, porque ele estava brigando pela artilharia. E não é para trás, não, é bem para trás. O nosso time era tão bom que a gente às vezes se desligava. Achava que ia ganhar a qualquer hora, a qualquer momento, e aí às vezes caía nessa maldição, né? E foi isso que aconteceu na Libertadores, que é uma pena aquele time não ter ganho. Foram duas (Libertadores) em que a gente saiu para o Palmeiras, né? Uma, o (ex-árbitro Oscar Roberto) Godoi me expulsou erradamente.
– Eu tenho uma mágoa do Godoi até hoje por causa disso. Porque a briga foi entre Marcelinho e Júnior, eu fui separar a briga e ele acabou me expulsando, eu e o Júnior. Ele me expulsou, o jogo foi 2 a 0. Mas se fossem o Marcelinho e o Júnior expulsos, a gente ganhava de cinco. Uma que eu já tinha feito um gol e outra que eu era um jogador eclético. Eu conseguia fazer a do Marcelinho e a minha ao mesmo tempo. O meu forte sempre foi vir de trás, abrindo espaço, quebrando as linhas. Quando fui expulso, o Corinthians perdeu esse jogador que quebrava as linhas. Com um a menos para os dois times, ia ter muito mais espaço para eu poder fazer isso. Quando ele me expulsa, o Corinthians perde essa força e fica com o Marcelinho e o Luizão sozinhos na frente. E o Marcelinho não é esse perfil de jogador de quebrar linhas, ele é de passe, de lançamento, de chute. Quando o Godoi transfere a expulsão do Marcelinho para mim ele prejudica muito mais o Corinthians do que o Palmeiras. Isso foi na segunda Libertadores. A gente ainda consegue ganhar o jogo de 2 a 0, vai para os pênaltis e perde.
Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
Já imaginou se, hoje em dia, alguém faz as embaixadinhas como você fez? O que aconteceria?
– Acho que o cara fica um ano sem jogar, né? Acho que tem muita gente que tem vontade de fazer, mas não faz por causa disso, de repente pega um gancho de seis meses, um ano. Eu acho uma bobagem, uma besteira. Acho que o futebol teria que ser isso. Aquilo ali é o improviso, são coisas que a gente não está acostumado a ver no futebol, mas não existe uma regra que fale que você não pode fazer, de repente fazer uma embaixadinha, botar a bola na cabeça, dar um drible bonito. Acho que o futebol hoje está muito pobre por causa disso. Hoje você não pode fazer nada. Eu sou da época em que eu ia para a Fonte Nova, o Dadá Maravilha falava: "hoje eu vou fazer o gol do Fantástico". Túlio Maravilha, o Romário... Hoje você não pode falar nada.
– Você é provocado? A melhor maneira de você questionar isso é provocando a outra pessoa também. Eu fiz embaixadinhas? Pô, o Paulo Nunes, o Júnior, Oséas... Pega e faz alguma coisa também. Eu acho que com violência não é legal. Aí eu fiquei suspenso e perdi a Copa América. Eu não sou campeão da Copa América, porque tinha sido convocado e ia viajar no outro dia. Acho que Deus sabe o que faz, né? Ali o Ronaldinho (Gaúcho) foi no meu lugar e virou Ronaldinho, o mundo começou a enxergá-lo depois daquela Copa América em que ele faz aquele gol (dando chapéu) em cima do venezuelano. Se eu não fosse cortado, o Ronaldinho não teria aquele gol. Foi a primeira convocação dele também para a seleção brasileira. Então, de repente, a embaixadinha serviu para revelar o Ronaldinho.
Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
Aquele episódio prejudicou a sua carreira?
– Foi até bom, cara, porque eu estou falando da Copa América e tem muita gente que nem lembra que o Brasil foi campeão, mas das embaixadinhas... Esquece, todo mundo (lembra), até porque até hoje passa. Vai ter um jogo Palmeiras x Corinthians, a primeira coisa que passa é aquilo. Então eu fiquei marcado. Hoje eu sou ídolo do Corinthians por causa das embaixadinhas, eu vou ao estádio, o que mais tem é camisa das embaixadinhas, tem bandeira das embaixadinhas. Eu tenho as embaixadinhas tatuadas aqui no meu corpo também. Vou levar para o resto da vida.
Você é corintiano, Edílson? Como você vê essa relação com Corinthians e Palmeiras?
– No aniversário daquele time de 1993 do Palmeiras colocaram uma mancha no meu rosto (na foto). Acho isso uma bobeira. Ninguém pode apagar uma história. Eu tenho uma história no Palmeiras que ninguém pode apagar. Nem os torcedores do Corinthians, que desejariam muito, podem fazer isso. Eu construí aquela história. Mas hoje não tenho acesso ao Palmeiras, tenho ao Corinthians. A torcida do Corinthians supre essa falta que o Palmeiras faz. Hoje sou um cara que adora ir ao Corinthians. Tenho muito carinho e respeito, e sou muito bem recebido. A torcida tem um carinho enorme por mim. Vou ao estádio para assistir a um jogo, mas não consigo, porque acabo tirando foto com todo mundo.
– Depois que vesti a camisa do clube, tornei-me corintiano e tenho o maior prazer nisso. É totalmente diferente dos outros times. Tenho tanta liberdade no Corinthians que, quando vou em dia de jogo, se pudesse, pegava a camisa, vestia, botava a chuteira e entrava em campo. É muita liberdade e parceria com a diretoria e com os jogadores. Isso é muito legal. Hoje, minha imagem é muito ligada ao Corinthians. É uma pena (a atual situação), porque o clube tem um potencial enorme para dar a volta por cima. Com a força da torcida, as pessoas que querem o bem do Corinthians ficam 24 horas pensando em como tirá-lo dessa situação.
Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
Edílson gosta do Memphis? Gostou da renovação?
– Gosto do Memphis. No nível em que o futebol está hoje, dizer que não gosta dele seria até um pecado. O Memphis é um excelente jogador, capaz de decidir uma partida a qualquer momento. A capacidade técnica dele é totalmente diferente da de muitos. Acho que ele é um dos melhores atuando no futebol brasileiro hoje, principalmente quando está bem fisicamente.
– Dei uma declaração que era um "abacaxi grosso" para o Corinthians descascar. Só quem está lá dentro poderia analisar se valia a pena ou não. Na minha opinião, renovar com o Memphis era um abacaxi grande, e não renovar era outro. Eles não sabiam o que era pior: continuar ou deixá-lo seguir. Foi uma decisão da diretoria, mas o Corinthians vai se prejudicar com essa renovação, assim como se prejudicaria com a não renovação. Isso é certo. Lá na frente é que vamos ver a dificuldade e o problema em que o Corinthians vai entrar com isso.
Quem é mais ídolo do Corinthians: você ou o Craque Neto?
– Acho que o Craque Neto é mais ídolo do que eu, mas o corintiano gosta mais de mim do que dele. Posso justificar? O Neto jogou mais tempo no Corinthians e, na época dele, era o principal jogador. Ele não ganhou mais do que eu. Tenho mais títulos, mais tudo do que ele no clube. Só que o Neto jogou em uma época em que o Corinthians não tinha um time tão bom igual ao nosso. Ele conseguiu ganhar um Campeonato Brasileiro e um Paulista, e viveu o Corinthians intensamente durante um bom tempo.
– Sou ídolo no Corinthians, no Palmeiras para muitos, no Flamengo, no Vitória, no Japão, na Arábia... Então, não me importo se a pessoa é mais ídolo do que eu. Quero ser bem aceito, respeitado pelos torcedores e valorizado por tudo aquilo que fiz. Não tenho essa vaidade de ser o maior ídolo ou mais ídolo do que fulano ou ciclano. Fiz o meu trabalho e a minha parte. Enquanto vesti o manto desses times, sempre dei a minha vida, foi a minha segunda pele. Ser mais ou menos ídolo do Corinthians, para mim, já é maravilhoso.
Você ainda joga uma peladinha? Porque você fala com tanto amor de futebol, diz que se divertia tanto...
– Vou te falar uma coisa: no meio dos velhos, hoje, eu sou o Messi. Se me botarem para jogar com eles, sou o Messi. Graças a Deus, tenho uma vantagem: nunca me lesionei. E treino todos os dias. Disputo campeonato de futebol na areia, então meus treinamentos hoje são muito mais pesados do que na época em que eu jogava profissionalmente. Naquela época, eu não treinava muito porque já tinha um talento bom e sabia o que fazer em campo. Hoje, treino muito mais. Então, quando vou jogar com os caras que já estão barrigudos, bebem para caramba e não treinam, eu viro o Messi da vida.
Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
Aproveitando esse exemplo, você já falou em redes sociais que jogou mais do que o Neymar, ou fez comparações com o Messi... Por que você tem essa teoria? Você jogou mesmo mais do que esses caras?
– O futebol é dom e talento. Quem dá é Deus. Só que muita gente joga futebol e não se promove, não tem um estafe por trás, e isso conta muito. Eu sempre joguei com o dom que Deus me deu, nunca liguei para montar estrutura para me divulgar. Imagina o que seria aquele meu gol no Mundial de 2000, dando uma caneta no Karembeu, do Real Madrid, com as redes sociais de hoje? Imaginem o alcance daquelas embaixadinhas (na final do Paulista de 1999) no mundo inteiro. Fui eleito o melhor jogador do Mundial de 2000. Fui tricampeão brasileiro, tricampeão paulista, campeão baiano, mineiro, japonês... Sabe o quanto isso ia gerar de mídia para mim? Só que muito jogador aprendeu isso mais cedo e reverteu a seu favor.
Entrava no vestiário e falava: "Querem ganhar o jogo hoje? Passem a bola para mim e deixem que eu resolvo". Eu não era jogador de treino, era jogador de jogo grande.
— Edílson.
– Não estou falando que o Neymar não joga. Ele joga muito. Na última década, é o melhor jogador, disparado. Mas será que o Neymar jogaria na Seleção Brasileira de 2002? Fica a pergunta para o público. A bola que ele joga hoje o colocaria no lugar do Rivaldo? Talvez o Neymar do Barcelona, que era jovem e tinha o Messi, o Suárez, o Iniesta e o Xavi do lado. Mas, com a bola de hoje, acho que não. O Rivaldo foi o nosso melhor jogador naquela Copa do Mundo e tem uma história maravilhosa no futebol internacional. Tem muita gente que acha que o Neymar não jogaria no lugar dele.
– Enfim, a minha opinião é a seguinte: se botar na minha frente, pode ser quem for, eu não "respeito" ninguém no campo. Pode vir o Messi, o Cristiano Ronaldo... Lá na Bahia a gente fala que é "barril dobrado", eu não como nada de ninguém. Podem perguntar a quem jogou comigo no Corinthians, como Marcelinho, Dinei, Vampeta. Eu sempre tive uma personalidade muito forte.
Veja a resposta completa no vídeo abaixo:
Edilson detona ex-jogadores: “Depois que para de jogar todo mundo vira o Messi da vida”
Hoje faltam esses caras que chamam o jogo na nossa Seleção?
– Não gosto de falar de coisas que não sei. Não sei como são os jogadores de hoje, eu falo de mim, da minha época. Não sei como é o vestiário atualmente, se o jogador tem essa personalidade, se os treinadores dão essa abertura ou se os atletas se preocupam em não se desgastar com o técnico. Eu já comprei muita briga por ser assim. Já tomei muita pancada por ser dessa maneira também. Na hora em que você fala que vai resolver e não resolve, as pancadas vêm todas para você. Tem muita gente que não gosta de correr esse risco. Percebo que são poucos os que pensam: "Vou assumir e vou fazer". Tem cara que não quer assumir essa responsabilidade perante o grupo. Até tem potencial, mas não quer correr o risco de pedir a bola, dizer que vai resolver e acabar não fazendo.
Veja a resposta completa no vídeo abaixo:
Edilson afirma que Vini Jr não teve personalidade para cobrar pênalti na Copa
Foi muito decepcionante a nossa eliminação na Copa do Mundo daquele jeito?
– Poucos brasileiros tinham essa confiança de que o Brasil ia ser hexa. O brasileiro, com todo o respeito, tem que ser estudado. Gosta de Copa do Mundo para fazer farra, botar roupa, comprar camisa, ir para o barzinho tomar cachaça. É só desculpa. A maioria, se passar um jogador da Seleção do lado, não sabe nem quem é. É do brasileiro gostar de fazer festa, mas dizer que o país estava confiante no hexa? Não tinha como, cara.
– A gente jogou sem centroavante. Jogou sem dois laterais do jeito que a gente gosta, que apoiam. Não tínhamos um Roberto Carlos, um Cafu, um Careca, um Ronaldo, um Romário na frente. Com todo o respeito, gosto muito do Marquinhos e do Gabriel Magalhães, mas a gente não tem um Lúcio, um Edmílson, um Aldair, um Júnior Baiano... E aí você quer ganhar uma Copa do Mundo? O Vampeta tem razão. A gente ganhou a Copa de 2002 na maior dificuldade, com Ronaldinho, Rivaldo, Cafu, Roberto Carlos... Com uma seleção maravilhosa, já tivemos dificuldade. Como é que vamos ganhar sem centroavante, sem um camisa 10, sem laterais? É muito difícil. O torcedor às vezes se ilude com o que ouve, mas nós, que temos experiência na profissão, não confiávamos nisso.
– Antes de a Seleção viajar, a gente já sabia que não ia arrumar nada. Com a Espanha e a França do jeito que estavam, era batata: na hora que pegasse uma seleção forte, ia tomar pau.
No nosso grupo de WhatsApp dos pentacampeões, o que a gente percebia conversando era que ninguém tinha a confiança no hexa
— Edílson.
Dizem que a galera de 2002 não torce para o Brasil ser campeão, porque assim vocês continuam sendo os últimos campeões mundiais, fazem propaganda. Você é desses também?
– Não, não sou. Ninguém vai tirar esse título de penta da gente. Acho que o Vampeta brinca muito com isso para viralizar na mídia, mas ele também torce para a seleção brasileira ser campeã. Até porque, para nós que vivemos do futebol, é maravilhoso. Fomenta o mercado, gera mais trabalho e valoriza os nossos treinadores e o nosso futebol. E, com o futebol valorizado, nós, ex-jogadores, pegamos uma beirinha disso aí.
Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
Aproveitando, queria inaugurar uma sessão de histórias de briga de vestiário...
– Vou contar uma. A gente estava jogando fora de casa. E eu e o Marcelinho (Carioca) ficávamos naquela de driblar para caramba: "Ah, você viu o que eu fiz? Agora vou dar uma canetinha". Ficávamos brincando de um querer fazer mais do que o outro. Numa dessas, fui driblar o cara e perdi a bola. O Rincón reclamou comigo.
– A bola veio de novo para mim e eu, com a minha personalidade, tentei fazer a jogada e deu errado outra vez. O Rincón gritou, abriu os braços: "toca a bola!". Eu virei e falei: "pô, negão, tá falando para caramba, você não joga nada!". O Rincón jogava muito, mas eu falei daquele jeito. Ele arregalou o olho: "o quê? Vou te pegar no vestiário!".
Veja a resposta completa no vídeo abaixo:
Faca no vestiário: Edílson Capetinha relembra discussão com Rincón
– Tive algumas brigas no futebol por muita vaidade. Hoje, graças a Deus, resolvi todas. Uma foi com o Rincón, outra foi com o Petkovic, no Flamengo. A do Pet, na verdade, era vaidade pura. Eu queria vestir a camisa 10. Quando cheguei lá, ele já estava com a 10, mas eu tinha no meu contrato que a camisa tinha que ser minha. Na hora, entendi que ele era o principal jogador do Flamengo, e tirar a 10 dele causaria um problema enorme no grupo. Por incrível que pareça, isso aconteceu no Corinthians agora, com o Memphis e o Garro. Não é que teve problema, mas você vê que o rendimento do Garro caiu muito.
– Enfim, conversando com o presidente do Flamengo, entendi que não tinha necessidade de tirar a 10 do Pet, mas eu jogava na cara dele: "você está com a 10 porque eu quero". Começou aquela briga de vaidade. Formava o time do Pet nos treinos, o time do Edílson... Na hora de bater pênalti, nós dois queríamos. Foi uma briga enorme, mas dentro de campo a gente se dava bem. Ele fez muitos gols com passe meu, e eu com passe dele. A vaidade era só fora de campo.
“Eu queria vestir a camisa 10”: Edilson Capetinha detalha polêmica com Petković
E com o Evaristo de Macedo, teve aquela história dos tiros na concentração do Vitória...
– Foi uma brincadeira sem graça que virou uma coisa enorme. A concentração do Vitória tinha sido assaltada numa quinta-feira. Era a época dos tênis Nike 12 molas, que valiam para caramba. Alguns jogadores mais jovens, como o Obina, o Magno e o Leandro Domingues, moravam lá. Os assaltantes perguntaram por mim: "cadê o Capetinha?". Como eu era o principal jogador, queriam saber de mim. A galera avisou que eu não concentrava naquele dia.
– Na sexta-feira, fui treinar e o Obina me contou isso. O jogo contra o São Paulo seria no domingo. Falei para o Evaristo: "Não vou concentrar hoje, não". Ele respondeu: "Se não vier concentrar, não vai jogar". Eu rebati: "quem manda no time não é você, é o presidente Paulo Carneiro. Se ele falar que vou jogar, eu jogo". O Evaristo falou: "não venha concentrar e vamos ver se você joga".
– Não fui na sexta. No sábado de manhã, cheguei às 9h para o rachão. Fui ao meu armário e minha roupa não estava lá. Disseram que eu tinha que falar com o supervisor. Peguei meu carro, fui para casa e voltei a dormir. Detesto acordar cedo. Acordei às 15h e tinha mensagem do presidente: "vá concentrar, vou falar com o Evaristo. Você vai jogar". Perguntei que horas tinha que estar lá. Ele disse às 19h, para o jantar. Eu falei: "não, vou às 22h para o lanche, só para dormir".
– Cheguei umas 22h30. Todo mundo já tinha lanchado. Estavam o Evaristo, o Cleber Santana, o Obina e o presidente conversando na beira da piscina. Eu cheguei de carro e os vi lá embaixo. Pensei: "vou dar um susto nos caras". Na época, eu tinha porte de arma e andava armado. A pista da concentração era de barro e brita. Quando abriram o portão, desci de primeira, segunda marcha... Imagina, a concentração tinha sido assaltada um dia antes! Cheguei no estacionamento, puxei o freio de mão e dei um cavalo de pau. Poeira para todo lado. Baixei o vidro e dei um monte de tiro para cima.
– Cara, que estrago! O presidente se jogou na piscina, um correu para o mato, outro torceu o pé, outro entrou na cozinha e quebrou o vidro... Eu fui para o meu quarto, tranquei a porta e fiquei ouvindo o barulho lá fora: "eita, o bicho tá pegando".
– Aí chegou o Amaral batendo na porta: "macaco, macaco!". Ele sempre me chamou assim. "Reunião para você pedir desculpa". Eu falei: "pô, Amaral, já são quase meia-noite. Reunião a essa hora?". Ele insistiu: "Se você não pedir desculpa..."
– Nisso, vieram o Evaristo e o Paulo Carneiro, que ainda estava molhado da piscina. O Evaristo começou a falar um monte de groselha: "você é jogador ou bandido? Foi uma brincadeira? Por isso você foi embora do Flamengo, porque é bandido". O Evaristo contava com orgulho no vestiário que foi o único treinador que deu um soco no Romário. Quando começamos a discutir, o presidente tentava acalmar, o Evaristo bateu no meu ombro. Pensei: "esse velho vai me dar um soco igual deu no Romário". Quando me virei, já fui empurrando, e ele caiu. Aí o presidente cravou: "você não vai jogar". Fui para casa e não joguei.
– O Vitória perdeu de 4 a 0 para o São Paulo no domingo, no Barradão. Voltei a treinar só na terça-feira. Fui mal para caramba. Não deveria ter feito aquela brincadeira sem graça, nem ter empurrado o Evaristo para me proteger. Ele foi meu treinador no Corinthians, me ajudou muito, era um cara mais velho que eu tinha que respeitar. Acabei não respeitando, mas já pedi desculpas a ele. Aproveito aqui para pedir desculpas a ele mais uma vez.
Veja a resposta completa no vídeo abaixo:
Edilson lembra tiros para o alto e empurrão em Evaristo de Macedo no Vitória
Você não foi para a concentração, faltou no treino, e o jeito que achou bom para voltar foi dando tiro para o alto?
– Não, não bota essa pilha, não! (risos). Deixa eu te falar: eu fiz a brincadeira por causa do assalto. Os caras ficaram com medo, achando que era o ladrão de novo. Eles não tinham visto que era eu. Por isso ficou uma brincadeira sem graça. Eu nem gosto de contar essa história. Estou contando aqui para vocês porque eu fui mal pra caramba nessa brincadeira.
Edílson Capetinha em entrevista ao Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli
Você mencionou a do Petkovic, a do Rincón, e logo no começo da carreira teve uma com o Edmundo também, né?
– Pô, a do Edmundo foi... Eu até já contei essa briga. A gente ficou um bom tempo sem se falar, mesmo jogando junto. Mas o Edmundo foi o errado no dia. Foi em 1993, Palmeiras e Bragantino. Lembro como se fosse hoje. Estávamos ganhando de 2 a 0, aos 45 do primeiro tempo. Eu e ele entramos mano a mano contra o zagueiro. Eu poderia ter tocado a bola para ele, mas fiz a finta e cortei o zagueiro. Como eu estava distante do gol, esse mesmo zagueiro se recuperou e me deu uma entrada por trás, bem na entrada da área.
– O Edmundo achou que eu tinha que ter tocado a bola. Eu tomei um carrinho por trás, estava me contorcendo de dor, naquela época não tinha expulsão direta por falta por trás, o cara tomou só amarelo. E o Edmundo reclamando comigo. Quando eu levantei, ele me deu um tapão na cara. Sabe aquela empurrada com tapa? A torcida do Palmeiras chiou: "pô, o que é isso?". Pensei: "não precisava disso. Se eu revidar aqui, o juiz expulsa nós dois e vai prejudicar o time". Bateram a falta na trave e o juiz acabou o primeiro tempo.
Veja a resposta completa no vídeo abaixo:
“Me deu um tapão na cara”: Edilson conta desentendimento com Edmundo
Aquele negócio de você sempre discordar do Craque Neto na televisão era um personagem?
– Não, eu discordava mesmo, mano. De verdade. Comentar jogos é algo que adoro de coração. Aprendi muito com o Craque Neto, trabalhei dois anos com ele. Ele é um cara muito inteligente. Eu gosto muito do trabalho que realizei com ele, eu era um contraponto. Questionava muito, e isso gerava polêmica. É legal você ter um contraponto para discutir os assuntos. A maneira como o Neto fala, para quem não o conhece ou está de fora, às vezes parece um pouco absurda, mas ele tem uma audiência enorme há muito tempo. Nenhum burro fica com uma audiência dessas durante tanto tempo. Ali não tinha nada de personagem. Eu discordava e, muitas vezes, dava risada do comportamento dele. A maneira como eu mexia com ele era engraçada, porque ele ficava nervoso, apelava, e esse contraponto era muito legal.
– Hoje, graças a Deus, tento trabalhar a minha própria imagem. Faço meus eventos, palestras, cuido das redes sociais e atendo meus patrocinadores. Meus projetos agora são trabalhar para mim mesmo: fazer o meu programa, o meu canal no YouTube e o meu podcast. Já estou estruturado para isso. Faço o Edílson Que o Povo Gosta, que é um podcast, e viajo com o Vampeta e o Amaral fazendo o show A Melhor Resenha do Mundo em teatros e casas de show. Tenho recebido convites para voltar à TV, recebi duas propostas muito boas de emissoras grandes agora, mas acabei não aceitando.
Trabalhar com futebol, dentro de um clube ou instituição, foi algo que você teve vontade em algum momento?
– Eu pensei. Fiz os cursos da CBF. Eu estava praticamente acertado com o Ednaldo Rodrigues (presidente da CBF) para ser contratado. A ideia era eu fazer um trabalho de assessoria com os ex-jogadores mais ligados à CBF. Acabou que o Ednaldo saiu e eu não fui contratado. Eu acho que os campeões mundiais e os jogadores que tiveram representatividade na Seleção Brasileira precisam ser amparados e assistidos pela CBF. Eu ia entrar para fazer essa ponte. A experiência que nós adquirimos durante a nossa trajetória inteira tem muito a agregar lá dentro, e vejo poucos ex-jogadores lá. O projeto com o Ednaldo era levar alguns de nós para dar esse amparo à Seleção Brasileira. Sinto falta de nomes grandes, com experiência, dentro da CBF para ajudar tanto a instituição quanto a Seleção.
Edílson Capetinha tem tatuagem das embaixadinhas — Foto: Marcos Ribolli

