Roger Machado bloqueia dois mil números no WhatsApp e evita redes sociais

Aos 51 anos, Roger Machado está desempregado, mas não arrependido da passagem relâmpago pelo São Paulo. O último trabalho, apesar de conturbado, virou fôlego para ele adiar os planos que tinha para os 50: pausar a carreira para se dedicar mais à família e aos estudos. Apesar de tirar um tempo para "despressurizar", ele espera voltar logo ao mercado.

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Em um espaço onde reúne lembranças, como chuteiras parcialmente destruídas pelo tempo guardadas numa caixa, cadernos com declarações de amor de fãs e camisas de adversários ou que ele mesmo usou, Roger Machado recebeu o ge em Porto Alegre para um papo de uma hora e meia sobre passado, presente e futuro.

Sem clube desde maio, quando foi demitido do São Paulo depois de dois meses e um dia de trabalho, Roger Machado resiste ao tempo, foge das redes sociais e tenta se afastar dos críticos sem rosto que invadem seu espaço no WhatsApp com ofensas e até ameaças. Tudo isso aumentou depois do último trabalho.

– Acham o telefone (da esposa e das filhas). Não sei como. O meu telefone, que eu tenho há pelo menos 25 anos, eu devo ter nele mais ou menos umas duas mil pessoas bloqueadas. Há um tempo te colocavam num grupo e nem precisava de autorização. Agora precisa. Mas individualmente as pessoas acabam acessando. E eu acho um desrespeito. Eu não vou trocar meu número. Vou bloquear um por um – diz Roger Machado.

Roger Machado em entrevista ao ge — Foto: Bruno Giufrida
A passagem pelo São Paulo durou pouco e foi marcada pela grande resistência do torcedor, contrariado pela saída de Hernán Crespo, mas Roger Machado não se arrepende de ter aceitado vivê-la - tanto que viveria de novo, garante. O técnico foi contratado em março para substituir o argentino, que deixou a equipe na segunda posição do Campeonato Brasileiro com quatro jogos disputados.
Roger Machado comandou o São Paulo em 17 partidas, com sete vitórias, quatro empates e seis derrotas, além da eliminação na quinta fase da Copa do Brasil.
– Eu genuinamente acreditei que o trabalho, com os torcedores me conhecendo mais e uma consistência maior dos resultados, fosse me fazer passar por esse momento, que conseguiria navegar por águas mais calmas. Viria a parada da Copa. Eu só tive uma semana aberta, mudei a forma de jogar. A impressão é que independente do que fizesse, sempre estaria equivocado.
– Eu gostaria de ter transformado aquele momento em algo positivo. Eu vejo como um desafio. Na cultura asiática, os significados de desafio e crise estão juntos. Claro que eu sabia de todos os riscos, do contexto. Você chegar para trabalhar num ambiente em que o treinador foi campeão e saiu também tem seus riscos. Chegar num ambiente em que o time está brigando para não cair tem seus riscos. Claro que eu gostaria de pelo menos na chegada ser acolhido – conta.
– Foram dois meses. Queria ter ficado muito mais. Não tenho mágoa nenhuma de nenhum momento. Mas claro que foi um momento que eu vou guardar como uma imagem, mas não como uma imagem negativa. Ressignificando aquele momento com os aprendizados que eu tive.
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Roger Machado em São Paulo x Juventude — Foto: Marcos Ribolli
Mesmo assim, Roger admite uma certa decepção com parte das cobranças de torcedores do São Paulo. Depois do jogo de ida da quinta fase da Copa do Brasil, contra o Juventude, por exemplo, a vitória por 1 a 0 não foi o suficiente para diminuir as vaias nas arquibancadas do Morumbis. No vestiário, o técnico colocou seu futuro no clube em xeque.
Reuniu os jogadores, refletiu sobre o momento que enfrentava no São Paulo e admitiu que aquela poderia ser sua última noite como técnico do clube, mas foi convencido por quem ali estava a desistir da ideia de deixar o Morumbis desempregado. Menos de 20 dias depois, foi demitido.
– Um momento bem emblemático foi o jogo contra o Juventude. Ali eu saí bem decepcionado do campo. E muitos atletas me acessaram, me prestaram solidariedade, disseram que estavam junto comigo e iam me ajudar a passar por aquele momento. A desproporção daquele momento foi marcada naquela situação. Mas a confiança no meu trabalho seguia.
Roger Machado em entrevista ao ge — Foto: Bruno Giufrida
À espera de uma nova oportunidade, Roger Machado se divide entre partidas de tênis, leituras em livros físicos (para sentir o cheiro do papel), as sessões de pilates que cessaram as dores nas costas, jogos de futebol e a família.
Veja, abaixo, a entrevista completa do treinador de 51 anos, com passagens por Grêmio, Internacional, Bahia, Palmeiras, Fluminense, Atlético-MG, Juventude e Novo Hamburgo.
Como está a vida, Roger? Como define esse momento?
– Eu acho (que é um momento) de despressurização. É tu voltar à rotina da família, dar um tempo para descansar, repensar, reavaliar tudo o que você fez, o que poderia ter feito diferente, e já começar a planejar os próximos momentos.
O que você gosta de fazer?
– A minha rotina é levar filhos ao colégio, fazer minha atividade física. Aqui é o meu espaço, é uma reunião de cinco lugares e um deles é a academia. Faço a academia em casa. Desde que parei de jogar, poucas vezes eu brinquei com a bola, a não ser nas atividades do dia a dia. Meu esporte é tênis, tenho uma máquina que arremessa bola. Pelo menos três vezes por semana faço aula de tênis. Atividade física de seis a sete vezes por semana.
– Tiro a manhã para fazer essas coisas, vir para o escritório, ver alguma coisa de análise, futebol, os gols. Ver os jogos da última Copa, já tem alguma coisa de câmera aberta na internet... Quais são as tendências. Sou um cara mais restrito, mais reservado. Um churrasco no domingo, um café durante a semana com um amigo ou outro treinador para discutir algo, um amigo de infância. É uma rotina...
– Às vezes me veem no supermercado e falam: "Tu aqui?". Sim, eu também faço compras (risos). As pessoas não imaginam. É uma rotina justamente para preservar estes momentos de mais tranquilidade, porque logo depois vêm esses momentos de mais estresse.
Em 2022, você deu uma entrevista e falou que talvez, aos 50 anos, desse uma parada...
– Já mudei de ideia (risos). Eu imaginava porque neste momento eu estaria completando 30 anos de vida esportiva. E eu sempre tive o desejo de voltar à faculdade e fazer uma outra formação, que ainda tenho. Uma psicologia, algo que me agrada muito, e poder desfrutar de fato de um período maior longe da atribulação do dia a dia.
– Mas eu percebei que eu estou no melhor momento de maturidade, da vida e da profissão, depois de muitos anos buscando conquistar um lugar nesse mercado tão competitivo, e cada vez mais gostando de estar como treinador. Parei de jogar aos 34, fui para a faculdade, com 38 foi a primeira oportunidade no Juventude, e se passaram 12 anos.
– Eu percebo que hoje eu vivo um momento especial como treinador e como pessoa. Isso me fez pensar em não parar agora, estender essa janela para perto do 60. Depois a gente vê como faz.
Em casa, aceitam bem você adiar isso?
– A família é quem mais sofre, porque de uma certa forma eu consigo me gerir bem e administrar bem essas pressões, por também já estar adaptado. Eu não tenho mídias sociais. Eu tenho profissionalmente, mas não tenho nem a senha para não me tentar a entrar. Nada (não entro). Não tenho. Não tenho mesmo.
– Porque é uma forma que consigo me proteger, porque felizmente ou infelizmente, as pessoas por vezes mandam, mesmo que seja alguém falando bem do trabalho... Mas eu peço que não me mande. Se algumas críticas eu entendo que elas têm pouco contexto ou elas podem estar de alguma forma fazendo uma avaliação errada, também tenho que pensar do elogio.
– Para ser justo, prefiro me abster e colher as informações do trabalho, do momento, daquelas pessoas que estão ali. Mesmo que algumas opiniões externas tenham um grau de relevância. Mas eu busco elas de um outro lado. A família que acaba sofrendo mais, mesmo as meninas já tendo nascido nesse ambiente do pai conhecido. Embora quando eu fosse jogador elas fossem pequenas.
Roger Machado em entrevista ao ge — Foto: Bruno Giufrida
– A vivência mais ativa é como treinador. Elas preferem não ir ao campo. Minha esposa tem as atividades dela, fica envolvida de uma certa forma, mas procura se proteger. Com a internet, infelizmente nos momentos de mais estresse, muitas vezes elas são acessadas.
– Acham o telefone (da esposa e das filhas). Não sei como. O meu telefone, que eu tenho há pelo menos 25 anos, eu devo ter nele mais ou menos umas duas mil pessoas bloqueadas. Há um tempo te colocavam num grupo e nem precisava de autorização. Agora precisa. Mas individualmente as pessoas acabam acessando. E eu acho um desrespeito. Eu não vou trocar meu numero. Vou bloquear um por um.
Nessa entrevista de 2022 também, você foi perguntado sobre seleção brasileira. O Tite estava saindo e você foi perguntado sobre a próxima Copa. Você justificou e disse que deveria ter espaço para um técnico brasileiro na Seleção. O Diniz e o Dorival passaram, mas a Copa foi do Ancelotti. Como você viu a Copa da Seleção? A sua opinião ainda é a mesma?
– Eu não sou contra os estrangeiros. Até porque nós brasileiros também ocupamos muitos outros espaços. É preciso voltar um pouco antes para entender o que esse movimento pode significar. Desse número grande de estrangeiros, no futebol brasileiro e na Seleção. Eu talvez seja oriundo desse momento de turbulência. Em 2014, quando perdemos a Copa no Brasil, o clamor, o ambiente externo pediam uma renovação. Felipão, Luxemburgo...
Roger Machado reflete sobre técnicos estrangeiros e vê brasileiros preparados
– Aqueles profissionais que prestaram grandes serviços ao futebol brasileiro estavam sendo questionados e punidos pela infelicidade da perda do Mundial no Brasil. Nesta onda, buscavam treinadores jovens, com metodologias mais modernas etc.
– Eu busquei espaço, assim como outros também buscaram. Depois, num outro movimento, que esses profissionais mais jovens não tenham atingido as expectativas que se esperava nessa renovação, surgiu uma nova demanda. E esses profissionais de fora do Brasil entraram. Esse processo é natural. Só que na minha opinião ele foi feito de uma forma abrupta. Obviamente os mais experientes dão espaços para os mais jovens.
– E nós chegamos à Copa depois de dois treinadores brasileiros com um profissional de fora, muito vitorioso, muito gabaritado, que muito estudei como treinador. Já tinham passado outros. A questão para mim é a gente manter o espaço e alguma medida para que esses profissionais dso país possam dividir, trocar conhecimento com esses profissionais que vêm de fora.
– Ainda sigo entendendo que temos profissionais capacitados para assumir a cadeira de treinador da Seleção, mas neste próximo ciclo vou estar torcendo pelo Ancelotti, como torci na Copa. Porque é importante para o futebol brasileiro.
– Assim como é importante para o futebol brasileiro o Filipe Luís estar começando uma temporada muito boa no Monaco, fazendo novamente com que outros mercados olhem para o treinador brasileiro com o prestígio que a gente sempre teve e a gente possa conquistar mercados que andamos meio desprestigiados e não ocupando esses espaços.
Você falou de técnicos jovens e de fato depois da Copa de 2014 teve uma safra grande. Você veio dessa safra. Em que prateleira do futebol brasileiro você se vê hoje?
– É. Eu não sou mais a revelação, mas não sou o veterano experiente. Eu me vejo na principal prateleira do futebol brasileiro, sobretudo pelos trabalhos que eu realizei, pela regularidade, pela constância da carreira que desenvolvi nesses 12 anos, pelas escolhas que eu fiz, que eu imagino que a maioria delas tendo sido de forma assertiva. E pelo caminho que ainda tenho a desenvolver no futebol brasileiro.
– Como todo treinador que iniciou muito jovem, o meu horizonte ainda é poder treinar a seleção brasileira.
Essa passagem pelo São Paulo aumentou seus cabelos brancos?
– Sempre aumenta. Eu comecei com 38 e não tinha cabelos brancos. Hoje está quase chegando no topo da cabeça. Foi um período curto, intenso, de bastante provação, mas de muito ensinamento, também. Do ponto de vista desportivo, foram dois meses, embora acreditasse que tinha bastante margem para evoluir.
– O trabalho não deu muito segmento. Do ponto de vista pessoal e para o desenvolvimento da carreira, a resiliência de perseguir, manter as convicções em um ambiente de muita rejeição, muita contestação, isso tudo me ajudou muito. Penso que foi um crescimento grande conseguir lidar com todo aquele ambiente.
Você precisou ser convencido a ir?
– Não. Eu entendia que era a melhor oportunidade que eu poderia estar recebendo nos últimos tempos, mesmo com todo o contexto, todo o risco, todas as variáveis. Primeiro, confiando no trabalho, na minha capacidade, e segundo acreditando que com o resultado e o trabalho a rejeição fosse ser revertida. Mas não foi.
Você não tem rede social. Como você foi apresentado àquele ambiente? Você sabia que o Crespo era querido e tinha identificação com o clube. Mas como você foi apresentado àquele contexto?
– Na minha apresentação, na minha chegada, eu quase tive que pedir desculpa por estar ali. Na coletiva de imprensa, eu fui apresentado a tudo. O Rui teve que justificar minha contratação. Mas mesmo não tendo rede social, de fato, eu acesso os principais meios de comunicação. E ali o cenário estava muito claro.
– A identificação do torcedor com o Crespo está tudo certo, o momento do clube. A expectativa da contratação do perfil do treinador que substituiria. Aí acho que entra um pouco o desprestígio do treinador brasileiro, o apelo pela vinda do estrangeiro. Isso tudo convergiu para impactar o ambiente. E tornar ele um pouco mais pesado. Embora que o dia a dia fosse muito leve.
Roger Machado sobre pressão no São Paulo: “Quase tive que pedir desculpas por estar ali"
O que você encontrou lá, no dia a dia?
– Eu encontrei um ambiente leve. Os jogadores muito interessados. Atividade diária perfeita. A partir de algum momento os jogadores começaram a sentir (a pressão nele). O ambiente externo acaba indo para o dia do jogo. E às vezes nos jogos fora, mesmo diante da torcida do São Paulo de outros lugares, era menor o impacto do que jogar em casa. Mas o nosso ambiente e a busca pelo ambiente tranquilo e saudável a gente encontrou.
Mas você acha que essa pressão chegava aos jogadores? Você sentia desconfiança deles?
– Não. Talvez um desejo maior ainda de trabalhar mais para que aquela desconfiança em função do comandante que eles estavam começando a aprender o que ele tinha a passar, começando a estreitar um relacionamento, e o desejo daquela comissão técnica de fazer aquilo acontecer, isso tudo fez com que os jogadores desejassem muito ajudar a passar aquele momento.
– Um momento bem emblemático foi o jogo contra o Juventude. Ali eu saí bem decepcionado do campo. E muitos atletas me acessaram, me prestaram solidariedade, disseram que estavam junto comigo e iam me ajudar a passar por aquele momento.
Você sentiu que os jogadores sentiram o que estava passando?
– Acho que sim. A desproporção daquele momento foi marcada naquela situação. Mas a confiança no meu trabalho seguia. Eu genuinamente acreditei que o trabalho, os torcedores me conhecendo mais, uma consistência maior dos resultados, fossem me fazer passar por esse momento, que conseguiria navegar por águas mais calmas. Viria a parada da Copa, que conseguiria transformar através do treino. Eu só tive uma semana aberta, mudei a forma de jogar.
– A impressão é que, independentemente do que fizesse, sempre estaria equivocado.
Em que momento sentiu isso?
– Mais para o final, quando os questionamentos estavam em volta das minhas escolhas, como tinha colocado o time para jogar, as trocas que tinha feito ou ia fazer, as entrevistas que eu dava. A partir deste momento, eu entendi que estava vivendo algo que eu ainda não tinha vivido. E tinha dúvida do que ia acontecer para a frente.
O São Paulo é uma lembrança que você não gosta de lembrar?
– Pelo contrário. Eu gosto de falar a respeito, porque temos de saber separar as coisas. Uma coisa é o momento da instituição, outra coisa são milhões de torcedores que querem uma única coisa, ver o time ganhar. E por mais que alguns momentos sejam pesados e doloridos, eu vejo isso de uma forma isenta e sem responsabilização, sem culpar o torcedor por tudo o que aconteceu.
Você entende o torcedor? Você guarda alguma mágoa?
– Talvez eu tenha saído mais magoado que hoje e talvez daqui a seis meses esteja menos ainda, porque não é o torcedor específico do São Paulo. As coisas estão um pouco mais viscerais e os clubes estão buscando novas formas de gerir para seguir perseguindo as grandes glórias do passado. O torcedor deseja que o clube vença sempre e hoje mais do que nunca que sua voz seja respeitada inclusive nas decisões que o clube vai tomar. E está tudo certo. Não tem nada errado.
– Foram dois meses. Queria ter ficado muito mais. Não tenho mágoa nenhuma de nenhum momento. Mas claro que foi um momento que eu vou guardar como uma imagem, mas não como uma imagem negativa. Ressignificando aquele momento com os aprendizados que eu tive.
Mágoa? Roger Machado fala de relação com a torcida do São Paulo
Quando você chegou, um tema muito delicado era o discurso. O Crespo caiu depois de falar que o São Paulo ia brigar contra o rebaixamento. Na sua chegada, você falou que estaria ali para brigar por títulos. Mas o São Paulo entrou numa queda livre. Hoje, você mudaria seu discurso?
– Eu não mudaria. E quem disse que o São Paulo não poderia ganhar a Sul-Americana, por exemplo? O Dorival conseguiu organizar o time e voltar a vencer para chegar num momento de decisão num viés de alta. Eu não mudaria (...).
Quando você foi contratado, uma das questões do torcedor era que você estava sendo contratado por ser amigo do Rui. Como você encarava isso?
– É claro que um dos motivos do Rui ter me contratado foi já ter trabalhado comigo. Por confiar no trabalho e na minha capacidade. Eu trabalhei com o Rui há 10 anos. E não tinha sido a primeira vez nem o primeiro lugar que o Rui tinha me convidado para trabalhar. O Rui já havia manifestado o desejo de voltarmos a trabalhar juntos, talvez motivado pelo período que tivemos juntos no Grêmio.
– Eu via isso não como uma ajuda de ninguém, mas como o reconhecimento da qualidade do que eu podia fazer.
Roger Machado em entrevista ao ge — Foto: Bruno Giufrida
A sua passagem ficou marcada também pelo caso do Arboleda. Ele desapareceu antes de um jogo muito importante. O que aconteceu?
– Eu não gostaria de falar especialmente nem factualmente do ocorrido. O certo é que como treinador tem algumas coisas que fogem ao teu controle. E o que eu tinha no meu controle era fazer a gestão da ausência do profissional que não ia para o jogo. Hoje a gente vê de novo o Arboleda jogando, eu fico muito feliz. Já ouvi em alguns momentos que tudo o que aconteceu não teve relação com quem estava (no clube).
Vocês não brigaram?
– Zero. Toda a relação que tive com todos os atletas, inclusive com o Arboleda, (foram boas). Tive conversas importantes naquele período... Hoje ele voltou a jogar, está jogando bem novamente. Imagino que tenha conseguido organizar toda a sua vida. Espero que possa seguir, com o talento que tem, ajudando o São Paulo.
Você gostaria de ter vivido outro momento do São Paulo?
– Não. Eu gostaria de ter transformado aquele momento em algo positivo. Eu vejo como um desafio. Na cultura asiática, os significados de desafio e crise estão juntos. Claro que eu sabia de todos os riscos, do contexto. Você chegar para trabalhar num ambiente que o treinador foi campeão saiu também tem seus riscos. Chegar num ambiente em que o time está brigando para não cair tem seus riscos. Claro que eu gostaria de pelo menos na chegada ter sido acolhido.
– Que as críticas viessem pelos maus resultados ou pelas escolhas somente. Mas eu não vejo... Acho que o momento era esse. A oportunidade não vem sempre no melhor cenário. E, de novo, eu acreditava que de fato eu conseguiria superar aquilo com o trabalho.
Avaliando sua passagem, você vê algum erro claro dentro de campo?
– Não consigo enxergar nada relevante que possa justificar qualquer tipo de tomada de decisão ou uma mudança dela. Eu troquei a forma de o time jogar, porque entendia, pela característica dos jogadores que eu possuía, que elas poderiam se adaptar melhor. As estratégias para os jogos eu fiz em função do nosso time e do adversário que íamos enfrentar.
– As escolhas pelos jogadores que busquei fazer pelo melhor momento ou pela característica de determinada posição. As substituições foram à medida do que pediam os jogos. O ambiente interno me permitiu tomar essas decisões com a confiança dos atletas dentro de campo.
– Não vejo que nestes dois meses eu possa ter tomado alguma decisão que não faria. E estávamos num caminho que eu vejo que haveria capacidade de grande evolução. Dois meses é muito pouco para avaliar qualquer tipo de trabalho de qualquer profissional.
Você comentou em outra entrevista sobre mensagens que suas filhas e esposa receberam. Você só soube disso depois? Como que isso te atinge?
– Minha esposa só me falou depois de alguns dias. Estava em casa, tocamos no assunto das redes sociais e ela disse que tinha encaminhado algumas mensagens para o Eduardo, meu advogado, para avaliar o que faríamos. No momento próximo da saída, ela e as filhas receberam ameaças no telefone.
– Perguntei por que não tinha me falado, ela disse que eu já tinha muita coisa na cabeça e precisava me concentrar no trabalho. Eu já estou adaptado a esse lugar. Nunca vou normalizar, mas estou adaptado, porque vivo isso há muito tempo. criei estratégias para lidar bem com isso.
Roger Machado diz que esposa e filhas receberam ameaças da torcida do São Paulo
– Essa é a única questão que me incomoda, porque passa do razoável. O meu celular é minha janela para o mundo. Eu já deixo ela quase 100% fechada. Eu queria ter o controle de quem me acessa e o que me acessa. Eu sinto que a minha privacidade foi invadida de uma forma determinante. Esse para mim é o contexto que a gente vive que mais me faz refletir sobre o desejo de continuidade e exposição neste lugar.
– Eu não enxergo um horizonte que a gente consiga regular isso, mediar isso, e as pessoas entendam que precisa separar as coisas. Eu te disse antes de começar que dificilmente eu vivo os lugares onde eu trabalho, porque a exposição é grande e acaba que você vive num ambiente muito mais privado do clube para casa, da casa para o estádio, para o aeroporto.
Você conheceu algo em São Paulo?
– Eu fui uma vez a um restaurante à noite, depois da vitória contra o Cruzeiro. Me permiti sair para espairecer um pouco, até porque minha família estava em São Paulo. Fomos a um restaurante.
– No meu celular eu tenho mais de duas mil pessoas bloqueadas ao longo desses 20 anos, que eu tenho esse número, porque eu não me permito aceitar trocar de telefone porque alguém acessa meu ambiente privado, entra pela minha janela sem pedir licença.
O que essas pessoas falam?
– O mais educado é pedir para ir embora. O restante são xingamentos de todos os tipos e jeitos que você pode imaginar.
Isso não te afeta?
– Já me afetou mais. É preciso entender. Eu não posso depositar minha energia neste lugar, então eu olho, me faz mal por cinco minutos e eu vou buscar liberar minha mente para pensar em outras coisas mais relevantes. E não volto mais a acessar aquele conteúdo. Assim como todas as outras críticas.
– Eu acesso, quando tenho contato, e busco entender, tirar o que é possível daquilo, e deixar de lado, porque é energia que eu não posso, não devo depositar, porque o individuo que faz isso tem muito tempo disponível e eu não vou entender aquele indivíduo como a torcida do time. Ele não é. Eu busco separar o ambiente virtual da realidade. A realidade não é essa.
Você passou por algo nas ruas de São Paulo?
– As pessoas não têm esse ódio. Você sempre fica receoso. Na saída do CT ficam algumas pessoas pedindo autógrafo. Temos um carro mais filmado, para ter privacidade. Eu passava e não parava, porque eu achava que eu fosse ser de alguma forma hostilizado também.
– Mas em um dos dias alguém viu e gritou meu nome. Eu parei. E a pessoa pediu autógrafo, tirou uma foto. As pessoas me trataram com carinho. Dizendo que estavam confiando no trabalho, que ia reverter aquela expectativa negativa. A partir deste momento passei a parar ali. Temos que saber separar essas questões da internet.
– A gente sabe que não tem rosto. Por vezes agem de forma mais visceral. Às vezes eu ia ao supermercado. Talvez aquelas que gostassem de me xingar não chegassem perto, mas as que me acessavam sempre foram bem educadas. É isso que temos que guardar. Talvez o ambiente externo contamine o dia do jogo, também.
Você chegou a cogitar pedir demissão?
– Não, não cheguei. Por acreditar que superaria aquele momento. Depois do jogo contra o Juventude, eu fiz uma reflexão no vestiário abordando esse assunto, que a oposição ao treinador que estava á beira do campo e o desejo dos atletas de transformar tudo aquilo em coisas boas, se isso não estaria atrapalhando o desempenho dos atletas. A única coisa que eu não gostaria era de atrapalhar.
E o que os atletas falaram?
– Se manifestaram em apoio e confiança ao trabalho. Eu nunca tive dúvidas da confiança no segmento. Mas se eu estava atrapalhando, a única coisa que eu não queria era atrapalhar o São Paulo.
Os jogadores te procuraram depois da saída?
– Volta e meia eu mando mensagem para alguns. Outro dia falei com o Lucas sobre sua recuperação. Ainda vamos nos encontrar à beira do campo, vou dar um abraço em cada um ali. Alguns já saíram.
– Eu vou guardar só as coisas boas. As que não foram tão boas, a gente ressignifica ou deixa para trás. O futebol não te permite muito ficar remoendo o que acontece, porque ali na frente talvez no futuro os mesmos que não desejavam que eu estivesse ali, se eu estiver num outro momento, vão gostar novamente.
Depois da classificação contra o Inter, o Luan apareceu no vestiário do Grêmio. É um jogador que teve uma carreira super precoce...
– Primeiro, temos que entender que às vezes a gente deseja que os outros sejam o que a gente quer, mas não perguntamos para os outros se eles querem. O Luan foi uma grata surpresa. Muitos perguntam por que coloquei o Luan como falso 9. Foi uma circunstância do momento. O James, que ficou no São Paulo, me disse que o Luan sabia fazer bem essa função, íamos ter mais gente no meio e ele chegaria na frente.
Roger Machado revela atraso de Luan no Grêmio e homenagem para cancelar multa
– Os jogadores especiais, que têm talentos especiais, também têm personalidades especiais. Eu não posso falar algo negativo (do Luan). Me ajudou muito e me deu poucos problemas, que eu consegui gerir bem.
– Eu me recordo e hoje posso falar, que ele não vai se chatear. Eu me recordo um dia que fomos jogar contra o Avaí. O preparador físico estava na saída do vestiário fazendo bobinho, eu perguntei porque estavam na saída do vestiário fazendo bobinho, porque faziam no meio. Ele estava atrasado. Eu falei para aquecer, que tinha viagem. Daqui a pouco eu percebi que o Luan entrou na roda.
– Perguntei o que tinha acontecido, ele disse que o relógio não tinha despertado. Eu falei: “Luan, a mentira que eu não contei eu vi alguém contar. Inventa outra”. Falei que eu só ia controlar ele no jogo e a multa seria calculada só depois da partida. Aí eu lembro que fomos para a palestra, eu estava conversando com ele e lembrei ele disso, que a multa seria só depois do jogo.
Luan comemora gol Roger Machado Grêmio Avaí Brasileirão Campeonato Brasileiro 2015 Ressacada — Foto: Reprodução/Sportv
– Mas falei que treinador era tudo vaidoso, a gente gosta quando o jogador dá entrevista, fala bem do treinador, faz o gol, vem, abraça o treinador, aponta, diz que somos os melhores. Aí ele sorriu para mim (risos). Fomos para o jogo, 1 a 0 para a gente, o Avaí estava pressionando a gente. Teve uma falta, ele botou a bola, bateu, botou na gaveta...
– A torcida estava atrás do gol e o banco era do outro lado. Ele foi na direção da torcida e veio para o banco. Ele vindo apontando, e eu olhando para o banco me perguntando para quem ele estava apontando. E quando eu ouvi ele estava gritando que eu era o melhor, pulou em mim e disse: “tira a multa”. Acabou o jogo e eu disse que ia seguir multando ele pelo atraso, mas muito obrigado por ter decidido o jogo.
– O Luan, se ele fez alguma coisa diferente, ele sempre fez pensando em fazer o seu melhor. E nem todo mundo vai conseguir. A nossa carreira é cheia de oscilações. Não comecei e terminei no mesmo nível. A gente oscila muito. Como jovem, muito jovem, não digo que não vamos nos deslumbrar em algum momento. Todos nós vamos.
– A questão é quanto tempo cada um de nós permanece. Alguns ficam um mês, seis meses, um ano. o apelo é muito grande. Quanto melhor você tem uma estrutura no teu entorno para passar por isso, melhor. Acho que em 2017 foi o Rei da América. Talvez não tenha conseguido seguir no mesmo nível porque a gente precisa entender quais as expectativas ele quer atender. Se a gente que não quer que o atleta seja aquilo que a gente quer que ele seja.
O que ainda mira na carreira?
– Quero conquistas relevantes que do ponto de vista externo colocam uma marca no treinador. eu tenho conquistas estaduais, mas tenho certeza que um Brasileiro, Libertadores, Copa do Brasil, Sul-Americana te colocam em outro patamar. Eu persigo. Não sei se vou parar realizado, mas vou perseguir até os 60, hoje.
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